Quando uma mulher recebe o diagnóstico de mioma uterino ou endometriose, é comum que surjam dúvidas sobre a possibilidade de existir mais de uma condição ginecológica ao mesmo tempo. Afinal, ambas podem provocar dor pélvica, alterações menstruais e até dificuldades relacionadas à fertilidade.
Mas será que é possível ter mioma e endometriose ao mesmo tempo? Embora sejam doenças diferentes, o mioma uterino e a endometriose podem coexistir na mesma mulher.
Por isso, identificar corretamente cada condição é fundamental para compreender o quadro como um todo e definir a estratégia de acompanhamento ou tratamento mais adequada.
Afinal, por que mioma e endometriose podem aparecer juntos?
Essa é uma questão que ainda desperta interesse na comunidade científica.
As duas doenças são influenciadas pelo ambiente hormonal e apresentam características relacionadas à ação dos estrogênios. Além disso, estudos discutem possíveis fatores genéticos, inflamatórios e moleculares que poderiam contribuir para a ocorrência simultânea.
Uma meta-análise publicada em 2025 na revista eClinicalMedicine, que reuniu 23 estudos e mais de 3 milhões de mulheres, observou que as mulheres com endometriose tiveram, em média, cerca de três vezes mais chance de também apresentar miomas. A magnitude dessa associação, porém, variou conforme as características dos estudos e das populações analisadas.
Portanto, é mais adequado dizer que mioma e endometriose podem coexistir e apresentam mecanismos que podem ter pontos em comum, e não que uma doença necessariamente provoca a outra.
Quais sintomas podem acontecer quando as duas doenças estão presentes?
O problema é que não existe um sintoma único capaz de indicar que uma mulher tenha simultaneamente mioma e endometriose.
Os sinais podem variar de acordo com o tamanho e a localização dos miomas, a localização e extensão das lesões de endometriose e as características individuais de cada paciente. Entre as manifestações que podem aparecer estão:
- cólicas menstruais;
- dor pélvica;
- dor durante ou depois da relação sexual;
- sangramento menstrual intenso ou prolongado;
- sensação de pressão ou peso na pelve;
- dor abdominal ou lombar;
- alterações intestinais relacionadas ao ciclo menstrual;
- sintomas urinários cíclicos;
- dificuldade para engravidar;
- aumento do volume abdominal em alguns casos;
- anemia decorrente de sangramento menstrual intenso.
É importante observar que nem todas as mulheres terão todos esses sintomas. Além disso, algumas podem ter miomas sem qualquer manifestação clínica, enquanto outras podem apresentar endometriose com sintomas discretos.
Os próprios miomas podem permanecer assintomáticos e ser encontrados durante uma consulta ou exame realizado por outro motivo.
A dor é causada pelo mioma, pela endometriose ou pelas duas?
Nem sempre é possível responder apenas pela característica da dor. A endometriose pode estar associada à dor pélvica, especialmente relacionada ao período menstrual, dor profunda durante as relações e sintomas intestinais ou urinários cíclicos, dependendo da localização das lesões.
Os miomas, por outro lado, também podem causar cólicas, dor abdominal ou lombar e sensação de pressão na pelve. Quando são volumosos, podem exercer pressão sobre estruturas próximas e contribuir para sintomas urinários ou intestinais.
Uma pista útil na consulta é o padrão dos sintomas ao longo do mês. Sintomas intestinais ou urinários que pioram no período menstrual e melhoram depois dele sugerem a participação da endometriose. Já a sensação de peso, a vontade frequente de urinar ou a constipação que se mantêm durante todo o mês costumam estar mais ligadas ao volume dos miomas. Não é uma regra absoluta, mas ajuda a orientar a investigação.
Há ainda uma terceira condição que entra com frequência nessa conta: a adenomiose, em que o tecido que reveste o útero por dentro (endométrio) passa a crescer dentro da sua parede muscular. Ela pode coexistir com os miomas e com a endometriose, provocar cólica e aumento do sangramento menstrual e, em alguns exames, ser confundida com miomas. Por isso, também precisa ser considerada na avaliação.
Quando as duas doenças estão presentes, os sintomas podem se somar ou se sobrepor — e isso tem uma consequência prática importante.
E se a dor continuar depois de tratar o mioma?
Quando mioma e endometriose coexistem, tratar apenas uma das condições pode não resolver todos os sintomas. É o caso da mulher que passa por uma miomectomia — ou até por uma histerectomia — e continua com dor pélvica, dor nas relações ou sintomas intestinais e urinários no período menstrual.
Nessa situação, a persistência dos sintomas é um sinal para investigar se existe endometriose associada que não foi identificada ou tratada. A retirada do útero, por exemplo, não trata as lesões de endometriose localizadas fora dele.
Por esse motivo, não é recomendável presumir que todo sintoma desaparecerá necessariamente após o tratamento de apenas uma das doenças.
Ter mioma significa que a mulher também tem endometriose?
Não. A coexistência é possível, mas ter miomas não significa automaticamente ter endometriose.
Os miomas são extremamente comuns e podem aparecer sem que exista qualquer outra doença ginecológica associada. Da mesma forma, uma mulher com endometriose pode nunca desenvolver miomas.
Essa diferença é importante para evitar investigações desnecessárias e, ao mesmo tempo, não deixar de considerar uma segunda condição quando existem sinais que levantam essa possibilidade.
É possível tratar mioma e endometriose ao mesmo tempo?
Sim, mas o tratamento precisa ser individualizado. Não existe uma única estratégia que seja obrigatoriamente indicada para todas as mulheres com as duas doenças.
A decisão pode depender de diversos fatores, como:
- intensidade dos sintomas;
- localização e tamanho dos miomas;
- características e localização da endometriose;
- idade;
- desejo de engravidar;
- presença de infertilidade;
- alterações menstruais;
- impacto das doenças na qualidade de vida;
- tratamentos realizados anteriormente.
Em algumas mulheres, o acompanhamento clínico pode ser suficiente quando os achados são assintomáticos ou provocam pouco impacto. Em outras, pode ser necessário utilizar medicamentos para controle dos sintomas ou considerar procedimentos cirúrgicos.
No caso dos miomas, existem opções medicamentosas e procedimentos específicos, incluindo a miomectomia, que remove os miomas preservando o útero em situações selecionadas. A escolha depende das características do caso e dos objetivos da paciente.
Já o tratamento da endometriose deve considerar principalmente os sintomas, a extensão da doença e os objetivos da paciente, incluindo questões relacionadas à fertilidade.
Quando há indicação cirúrgica para as duas condições, é possível, em casos selecionados, tratá-las no mesmo procedimento — por exemplo, por videolaparoscopia, com a retirada dos miomas e das lesões de endometriose. Para isso, o planejamento começa antes da cirurgia: exames de imagem que mapeiem tanto os miomas quanto a extensão da endometriose permitem definir a estratégia cirúrgica mais adequada para cada caso.
Ter as duas condições significa que o quadro é necessariamente mais grave?
Não necessariamente. A presença simultânea de mioma e endometriose não determina, por si só, a gravidade do quadro.
Uma mulher pode ter pequenos miomas assintomáticos e uma endometriose com poucos sintomas. Outra pode apresentar miomas que provocam sangramento intenso e endometriose associada a dor pélvica importante.
Por isso, o impacto na vida da paciente é mais relevante do que simplesmente contar quantas doenças foram diagnosticadas.
Também é importante evitar comparar a experiência de uma mulher com a de outra. O tamanho de um mioma não determina sozinho a intensidade dos sintomas, assim como a extensão da endometriose não necessariamente corresponde à intensidade da dor.
O objetivo da avaliação médica é compreender como cada condição está se comportando naquele organismo e quais consequências realmente precisam ser tratadas.
Mioma e endometriose podem coexistir, mas cada diagnóstico precisa ser compreendido
Mioma e endometriose podem, sim, aparecer juntos. Entretanto, o diagnóstico de uma dessas condições não significa que todos os sintomas da paciente sejam necessariamente explicados por ela.
Quando as duas doenças coexistem, é importante compreender o papel de cada uma no quadro clínico e avaliar de que maneira elas podem estar contribuindo para os sintomas.
Por isso, o mais importante não é tentar descobrir sozinha qual doença está causando determinado sintoma, mas realizar uma avaliação ginecológica individualizada, capaz de considerar a possibilidade de condições associadas e indicar a investigação adequada para cada caso.
Se você já tem diagnóstico de mioma ou de endometriose e os sintomas não se explicam por completo — ou continuam mesmo depois do tratamento —, uma avaliação especializada pode ajudar a entender o papel de cada condição e a organizar os próximos passos. Para agendar, fale com a equipe pelo WhatsApp (61) 99370-8068.
Fiore A, Casalechi M, Sichenze L, et al. Co-occurrence of endometriosis and uterine fibroids: a systematic review and meta-analysis. eClinicalMedicine. 2025;89:103510. doi:10.1016/j.eclinm.2025.103510.
