Muitas mulheres recebem o diagnóstico de endometriose e, quase imediatamente, passam a associá-lo à dificuldade para engravidar — como se essa fosse uma consequência inevitável. Não é.
A endometriose não é uma condição única em termos de impacto reprodutivo. Ela pode variar desde formas leves e assintomáticas até quadros profundos e infiltrativos com importante comprometimento anatômico. O que determina o impacto na fertilidade não é o diagnóstico em si — é o tipo, a extensão e o contexto clínico de cada paciente.
Por que a endometriose pode afetar a fertilidade?
A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao endométrio cresce fora da cavidade uterina. Esses focos podem aparecer em ovários, trompas, peritônio, intestino, bexiga e outras estruturas pélvicas, gerando um processo inflamatório crônico que altera o ambiente pélvico e pode interferir na ovulação, na fecundação e na implantação do embrião.
Entre os principais mecanismos que podem comprometer a fertilidade estão a inflamação pélvica persistente, as alterações anatômicas, o comprometimento das trompas, o impacto nos ovários e a dor que interfere na vida sexual. Nenhum desses fatores opera de forma isolada — e nem todos estão presentes em todas as pacientes.
A extensão da doença define o impacto reprodutivo
Endometriose leve: quando restrita ao peritônio com mínima alteração anatômica, muitas mulheres engravidam naturalmente. O impacto na fertilidade pode ser discreto e o acompanhamento clínico, sem intervenção imediata, pode ser adequado.
Endometriose moderada a grave: quando há endometriomas ovarianos, aderências pélvicas, comprometimento tubário ou endometriose profunda infiltrativa, o impacto na fertilidade tende a ser maior. A anatomia da pelve pode estar alterada, dificultando a captação do óvulo pelas trompas e reduzindo as chances de fecundação natural.
Endometriose profunda: uma das formas mais desafiadoras. Pode infiltrar intestino, bexiga e ureteres, comprometer a mobilidade das trompas, alterar a anatomia ovariana, manter um ambiente inflamatório persistente e causar dor nas relações que reduz a frequência sexual. Além disso, quando há endometriomas associados, a reserva ovariana pode estar reduzida.
A idade da paciente: o fator que não pode ser ignorado
Independentemente da endometriose, a idade é um dos principais determinantes da fertilidade. A partir dos 35 anos, a reserva ovariana tende a diminuir e a qualidade dos óvulos pode ser reduzida. Quando associada à endometriose, essa variável ganha ainda mais relevância, exigindo planejamento mais cuidadoso e, em alguns casos, abordagem reprodutiva assistida precoce. Adiar a investigação pode fechar janelas que, com planejamento, estariam abertas.
Reserva ovariana e endometriomas: uma relação que precisa ser avaliada com cuidado
Os endometriomas ovarianos podem impactar a reserva ovariana de duas formas: pelo próprio processo inflamatório da doença sobre o tecido ovariano, e pela cirurgia, quando necessária, que pode remover junto com o cisto parte do tecido ovariano saudável com folículos primordiais.
Esse ponto é clínica e cirurgicamente relevante: a indicação de cirurgia ovariana em pacientes que desejam engravidar precisa ser criteriosa. Em alguns casos, tentar a reprodução assistida antes de operar o endometrioma é a estratégia mais segura para preservar a reserva. Essa decisão não é simples — e precisa ser feita com quem conhece profundamente a doença.
A avaliação da reserva ovariana com Hormônio Antimülleriano (AMH) e contagem de folículos antrais é fundamental no planejamento reprodutivo dessas pacientes.
Trompas, aderências e fertilidade natural
As trompas de falópio desempenham papel essencial na fertilização natural. Na endometriose, elas podem ser afetadas por aderências pélvicas, inflamação crônica e distorção anatômica. Quando há comprometimento tubário significativo, a fecundação natural pode se tornar mais difícil mesmo quando outros fatores estão preservados.
Dor nas relações: o impacto indireto que frequentemente é subestimado
A dispareunia — dor durante as relações sexuais — é comum em casos de endometriose, especialmente na forma profunda. Ela pode levar à redução da frequência das relações, ao impacto emocional no casal e à diminuição das tentativas de concepção. Mesmo sem alteração estrutural grave, a fertilidade pode ser indiretamente comprometida.
O papel da cirurgia na fertilidade: o que a técnica define
Quando a cirurgia é indicada para melhorar a fertilidade em pacientes com endometriose, o objetivo não é apenas remover focos — é fazê-lo de forma que preserve ao máximo a anatomia e a reserva ovariana.
Na endometriose profunda, a cirurgia que restaura a anatomia pélvica — liberando aderências, desobstruindo trompas e removendo focos infiltrativos — pode melhorar significativamente as chances de gestação espontânea ou de sucesso em reprodução assistida. Mas essa cirurgia exige expertise. Realizada por profissionais
sem experiência na doença profunda, pode aumentar as aderências em vez de reduzi-las.
Os principais objetivos cirúrgicos no contexto da fertilidade incluem restauração da anatomia pélvica, liberação de aderências, remoção de implantes ativos, preservação dos órgãos reprodutivos e melhora da função tubária.
Reprodução assistida: quando ela entra no planejamento?
A fertilização in vitro (FIV) pode ser indicada quando há comprometimento tubário importante, baixa reserva ovariana, falha de tentativas naturais, endometriose moderada a grave ou idade materna avançada. A decisão entre cirurgia e reprodução assistida deve ser individualizada, levando em consideração idade, sintomas, extensão da doença e tempo de infertilidade.
A importância do diagnóstico precoce na preservação da fertilidade
Quanto mais cedo a endometriose é diagnosticada, maiores as chances de preservar a fertilidade, evitar a progressão da doença e planejar intervenções adequadas. O diagnóstico tardio pode levar a maior comprometimento anatômico, menor reserva ovariana e opções terapêuticas mais limitadas. Cada ano de atraso no diagnóstico pode impactar diretamente o prognóstico reprodutivo.
Endometriose e infertilidade não são sinônimos
Muitas mulheres que vivem com endometriose engravidam — naturalmente, após tratamento clínico, após cirurgia ou com auxílio de reprodução assistida. O diagnóstico não define o destino reprodutivo. Mas orienta o caminho.
Quando há informação adequada, avaliação especializada e planejamento individualizado, as chances de uma jornada reprodutiva mais segura e assertiva aumentam significativamente.
Se você tem endometriose e está pensando em engravidar — agora ou no futuro — esse é o momento certo para avaliar reserva ovariana, extensão da doença e as melhores opções para o seu caso. Construir esse planejamento com antecedência faz diferença no resultado.
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