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Endometriose profunda não tratada: quais os reais riscos?

A endometriose profunda é uma das formas mais complexas da endometriose e representa um dos maiores desafios da cirurgia ginecológica moderna. Diferentemente das formas superficiais, ela se caracteriza pela infiltração das lesões em estruturas profundas da pelve, podendo comprometer intestino, bexiga, ureteres e os nervos responsáveis pelo funcionamento desses órgãos.

Embora seja uma condição frequente, muitas mulheres convivem durante anos com sintomas importantes antes de receberem um diagnóstico. A normalização da dor menstrual, a dificuldade de identificar as lesões em exames convencionais e a falta de um mapeamento adequado fazem com que o diagnóstico seja frequentemente tardio.

E aqui vale um princípio que orienta toda a avaliação: comum não é sinônimo de normal. Sentir cólica é comum; conviver com dor que limita a rotina, altera o intestino ou provoca sintomas urinários cíclicos não é normal — e merece investigação especializada.

Uma dúvida comum entre as pacientes é se a endometriose profunda sempre piora quando não é tratada. A resposta exige cautela. Nem todos os casos evoluem da mesma maneira, mas deixar uma doença ativa sem acompanhamento pode aumentar o risco de complicações importantes, principalmente quando há comprometimento de órgãos.

Afinal, o que caracteriza a endometriose profunda?

A endometriose profunda é definida pela presença de lesões que se infiltram abaixo da superfície do peritônio, geralmente formando nódulos capazes de atingir estruturas e órgãos adjacentes.

Essas lesões costumam estar associadas a um intenso processo inflamatório e à formação de fibrose, o que pode provocar aderências e alterações importantes da anatomia pélvica. A doença pode comprometer intestino, bexiga, ureteres e ligamentos pélvicos.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a gravidade da doença nem sempre está relacionada apenas à intensidade da dor. Algumas mulheres apresentam lesões extensas com sintomas discretos, enquanto outras convivem com dor incapacitante mesmo diante de comprometimento aparentemente menor. Por isso, o mapeamento por profissional experiente é indispensável.

A endometriose profunda sempre evolui?

Não necessariamente. A evolução da doença varia bastante entre as pacientes. Existem mulheres que permanecem anos com lesões relativamente estáveis, enquanto outras apresentam progressão gradual do comprometimento anatômico e dos sintomas.

Essa diferença ocorre porque a evolução depende de diversos fatores, como o comportamento biológico das lesões, a resposta imunológica individual, a influência hormonal, a idade, o tratamento realizado e a localização da doença.

Por isso, receber o diagnóstico não significa que a cirurgia será inevitável — mas também não significa que a doença possa ser ignorada. O acompanhamento periódico permite avaliar se há estabilidade ou progressão do quadro.

O primeiro grande risco: a dor pode se tornar cada vez mais intensa

A dor é o sintoma mais conhecido da endometriose profunda. Ela pode se manifestar como cólicas menstruais incapacitantes, dor pélvica crônica, dor durante as relações sexuais, dor para evacuar ou urinar no período menstrual, dor em atividades físicas e desconforto lombar.

Quando a doença permanece ativa, o processo inflamatório contínuo pode favorecer a sensibilização dos nervos responsáveis pela percepção da dor. Com o tempo, algumas mulheres passam a sentir dor de intensidade crescente, mesmo em situações cotidianas.

Além disso, o sistema nervoso pode desenvolver a chamada sensibilização central, na qual o organismo responde de forma exagerada aos estímulos dolorosos. Quanto mais tempo a dor permanece sem controle adequado, mais difícil ela pode se tornar de tratar.

Comprometimento intestinal

Uma das complicações mais importantes da endometriose profunda é o acometimento do intestino. As lesões podem infiltrar principalmente o reto e o sigmoide, provocando sintomas como:

  • dor para evacuar durante a menstruação;
  • constipação cíclica;
  • diarreia relacionada ao período menstrual;
  • sensação de evacuação incompleta;
  • distensão abdominal;
  • sangramento intestinal durante a menstruação, em alguns casos.

À medida que as lesões evoluem, pode ocorrer estreitamento do lúmen intestinal, dificultando a passagem das fezes. Embora a obstrução completa seja incomum, trata-se de uma complicação potencialmente grave, que exige tratamento especializado e, muitas vezes, abordagem multidisciplinar.

Quando a bexiga e os nervos da pelve também são acometidos

A endometriose profunda também pode atingir o sistema urinário — e este é um dos pontos menos compreendidos da doença, inclusive entre profissionais.

As lesões podem comprometer diretamente a bexiga e os ureteres, mas também podem infiltrar os plexos nervosos da pelve, como o plexo hipogástrico, e as raízes sacrais — estruturas responsáveis pelo controle da bexiga e do intestino. Por isso, sintomas urinários que surgem ou pioram durante a menstruação (urgência, aumento da frequência, dor ao urinar, sensação de pressão vesical ou presença de sangue na urina) devem sempre levantar a suspeita de endometriose.

Muitas pacientes recebem repetidos tratamentos para “infecção urinária” sem que exista qualquer bactéria, justamente porque a origem do sintoma é ginecológica, e não urológica.

Reconhecer essa conexão entre sintomas urinários e endometriose profunda é decisivo: ela muda o diagnóstico, o mapeamento e, principalmente, o planejamento cirúrgico.

Um risco silencioso: comprometimento dos ureteres

Entre todas as complicações, uma das mais preocupantes é o acometimento dos ureteres — os canais que transportam a urina dos rins até a bexiga. Quando comprimidos pelas lesões, pode ocorrer obstrução progressiva da passagem da urina.

O grande problema é que essa alteração frequentemente não provoca dor. Em muitos casos, a paciente permanece assintomática enquanto o rim sofre perda gradual de função. Sem diagnóstico precoce, essa obstrução pode evoluir para hidronefrose e comprometimento renal permanente. Por esse motivo, o mapeamento adequado da doença é indispensável.

Formação de aderências

O processo inflamatório contínuo favorece a criação de “pontes” de tecido fibroso entre órgãos que normalmente deveriam permanecer separados. Como consequência, podem surgir redução da mobilidade dos órgãos, distorção anatômica da pelve, dor persistente, maior dificuldade cirúrgica e comprometimento da fertilidade. Quanto maior o tempo de evolução da doença ativa, maior tende a ser a complexidade dessas aderências.

Impacto sobre a fertilidade

Nem toda mulher com endometriose profunda apresentará infertilidade. Entretanto, essa forma da doença pode reduzir as chances de gestação por diferentes mecanismos, como distorção da anatomia pélvica, comprometimento das trompas, aderências ao redor dos ovários, processo inflamatório persistente e redução da qualidade do ambiente reprodutivo.

Além disso, algumas pacientes apresentam endometriomas ovarianos, que podem comprometer a reserva ovariana ao longo do tempo. Para mulheres que desejam engravidar, a avaliação individualizada é fundamental para definir o melhor momento de tratar a doença e planejar a gestação.

O impacto emocional também merece atenção

Os riscos da endometriose profunda não são apenas físicos. Conviver diariamente com dor, limitações funcionais e incertezas sobre a fertilidade pode gerar consequências importantes para a saúde mental, incluindo ansiedade, alterações do sono, redução da autoestima, impacto na vida sexual e isolamento social.

Infelizmente, muitas mulheres ainda passam anos ouvindo que seus sintomas são exagero ou que fazem parte da menstruação. Essa invalidação aumenta ainda mais o sofrimento — e reforça por que acolher e validar a dor faz parte do cuidado desde o primeiro atendimento.

E quando a cirurgia é indicada?

Receber o diagnóstico de endometriose profunda não significa que a cirurgia será inevitável. Seguindo as diretrizes da FEBRASGO, o tratamento é sempre individualizado e, em muitos casos, começa pelo controle clínico e pelo acompanhamento periódico.

No entanto, quando a cirurgia é indicada — por dor persistente, comprometimento de órgãos ou risco de perda funcional —, ela deixa de ser um procedimento simples. A remoção completa das lesões profundas, preservando intestino, bexiga, ureteres e nervos, é uma das cirurgias mais delicadas da ginecologia. Nesses casos, a experiência do cirurgião é o verdadeiro determinante do resultado.

A tecnologia — laparoscopia e energias avançadas — amplia a precisão, mas não substitui o domínio anatômico e a vivência em casos complexos. Por isso, a endometriose profunda deve ser avaliada e tratada em um contexto preparado para o mapeamento completo da doença e para uma abordagem multidisciplinar quando necessário, incluindo a colaboração de um coloproctologista nos casos de comprometimento intestinal.

Cuidar cedo significa preservar qualidade de vida

A endometriose profunda não tratada pode trazer consequências que vão muito além da dor menstrual. Quando não diagnosticada e acompanhada adequadamente, a doença pode evoluir, comprometer órgãos importantes e impactar profundamente a qualidade de vida.

Um diagnóstico preciso permite compreender a extensão da doença e definir a estratégia mais adequada para cada paciente, seja pelo tratamento clínico, cirúrgico ou pela combinação de ambos. Mais do que controlar sintomas, tratar a endometriose profunda é uma forma de preservar a saúde, a função dos órgãos, a fertilidade quando desejada e devolver à mulher a possibilidade de viver com mais bem-estar.

Seus sintomas merecem uma avaliação especializada Se você convive com dor pélvica, cólicas incapacitantes ou sintomas intestinais e urinários que aparecem junto com a menstruação, essa combinação não deve ser ignorada. Um mapeamento adequado é o primeiro passo para entender a real extensão da doença e definir a melhor estratégia para o seu caso. Agende sua avaliação com o Dr. Pedro Reis pelo WhatsApp com a Márcia: (61) 99370-8068

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