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Reposição hormonal pode ativar focos de endometriose na menopausa?

A chegada da menopausa costuma ser associada a uma redução dos sintomas da endometriose. Isso acontece porque a doença é influenciada pelos hormônios ovarianos, especialmente pelo estrogênio, e a menopausa natural provoca uma queda importante na produção desses hormônios.

Mas existe uma dúvida frequente entre mulheres com histórico de endometriose: a reposição hormonal pode fazer os focos da doença voltarem a crescer ou provocar o retorno dos sintomas? A resposta não é simplesmente “sim” ou “não”.

A terapia hormonal para a menopausa pode ser considerada em mulheres com histórico de endometriose, principalmente quando existem sintomas climatéricos importantes, mas a escolha do tratamento precisa levar em conta o histórico da paciente, a presença de doença residual, o tipo de cirurgia realizada anteriormente (caso tenha sido realizada) e a composição da terapia hormonal. Essa dúvida também aparece antes da cirurgia: muitas mulheres com indicação de histerectomia ou de retirada dos ovários por endometriose querem saber, antes de decidir, se poderão fazer reposição hormonal depois.

Por que a endometriose pode continuar relevante depois da menopausa?

A endometriose é uma doença caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Esses implantes podem estar localizados em diferentes regiões da pelve.

Durante a vida reprodutiva, o comportamento dessas lesões é influenciado principalmente pelo ambiente hormonal. Por isso, com a redução da produção de estrogênio que ocorre na menopausa, é esperado que a atividade da doença diminua. Isso, porém, não significa necessariamente que todos os focos desapareçam.

Além disso, mulheres que passaram por uma cirurgia para endometriose podem apresentar doença residual. Em algumas situações, essas lesões permanecem silenciosas durante anos e podem voltar a apresentar manifestações clínicas posteriormente. Por isso, a qualidade do mapeamento e do tratamento cirúrgico também faz diferença a longo prazo: quanto mais completa for a retirada dos focos — especialmente da endometriose profunda —, menor tende a ser a quantidade de tecido residual exposto ao estímulo hormonal no futuro.

Portanto, dizer que “a endometriose acaba automaticamente na menopausa” é uma simplificação que não corresponde ao conhecimento atual.

O que muda quando a mulher entra na menopausa?

Na menopausa, os ovários reduzem significativamente a produção de estrogênio. Essa alteração hormonal está relacionada ao surgimento de sintomas, como ondas de calor, suor noturno, ressecamento vaginal, redução da libido, perda progressiva de massa óssea, entre outros.

Nem todas as mulheres apresentam sintomas com a mesma intensidade. Para algumas, eles são leves e transitórios. Para outras, interferem diretamente no sono, na vida sexual, no trabalho e na qualidade de vida.

É nesse contexto que pode surgir a indicação de terapia hormonal da menopausa, anteriormente conhecida como terapia de reposição hormonal.

O tratamento busca repor determinados hormônios para aliviar sintomas relacionados à deficiência hormonal e, dependendo da situação clínica, oferecer benefícios adicionais, como proteção óssea.

Entretanto, quando existe histórico de endometriose, a decisão precisa ser individualizada.

Afinal, a reposição hormonal pode reativar a endometriose?

Existe essa possibilidade, mas isso não significa que toda mulher com endometriose terá uma reativação da doença ao utilizar terapia hormonal.

O principal motivo da preocupação é justamente a relação entre o estrogênio e a atividade da endometriose.

Mesmo após a menopausa, podem existir focos de endometriose no organismo. A introdução de estrogênio exógeno pode fornecer estímulo hormonal a tecidos que permanecem sensíveis aos estrogênios.

Estudos e relatos clínicos descrevem casos de recorrência ou exacerbação dos sintomas após a menopausa, inclusive em mulheres submetidas anteriormente a tratamento cirúrgico. Entretanto, a quantidade de evidências de alta qualidade ainda é limitada, o que impede estabelecer com precisão qual é o risco absoluto para cada paciente.

Por isso, não é correto afirmar que a reposição hormonal necessariamente “acorda” ou “ativa” a endometriose. Da mesma forma, também não seria adequado dizer que a terapia hormonal é sempre proibida para quem já teve a doença.

A decisão depende do equilíbrio entre benefícios da terapia hormonal, características da endometriose e possíveis riscos individuais.

Por que o estrogênio isolado merece atenção?

Esse é um dos pontos mais importantes para mulheres com histórico de endometriose.

A terapia hormonal pode ser composta por diferentes combinações. Mulheres que possuem útero geralmente precisam de um progestagênio associado ao estrogênio sistêmico para proteger o endométrio contra a hiperplasia causada pelo estrogênio.

No caso específico de mulheres com histórico de endometriose, existe uma preocupação adicional com a utilização de estrogênio sem oposição de progestagênio — e ela vale mesmo para quem já retirou o útero. Em mulheres histerectomizadas sem endometriose, o estrogênio isolado costuma ser a regra. Quando há histórico da doença, porém, as diretrizes orientam evitá-lo, porque o estímulo estrogênico sem contraponto pode favorecer a reativação de focos residuais e, em situações raras, tem sido associado à transformação maligna dessas lesões.

Isso não significa que a mulher que utilizou estrogênio isoladamente necessariamente desenvolverá uma complicação. Significa que, diante do conhecimento disponível, essa estratégia não é considerada a opção preferencial para quem tem histórico de endometriose.

E quando a menopausa é provocada pela cirurgia?

Nem toda menopausa chega de forma natural. Quando uma mulher com endometriose passa por uma cirurgia com retirada dos dois ovários, a queda hormonal é imediata — e os sintomas tendem a ser mais intensos do que na menopausa natural.

Se isso acontece antes da idade habitual da menopausa, a terapia hormonal costuma ser indicada, salvo contraindicações, não apenas para aliviar os sintomas, mas também para proteger os ossos e a saúde cardiovascular. Para mulheres com histórico de endometriose, as diretrizes orientam o uso de esquemas combinados — estrogênio associado a progestagênio —, mesmo quando o útero também foi retirado.

Por isso, a decisão de retirar ou preservar os ovários deve ser discutida antes da cirurgia, considerando a idade, a extensão da doença, os sintomas e os planos de cada mulher. Preservar os ovários, quando é seguro, evita a menopausa cirúrgica; retirá-los pode fazer sentido em situações específicas. Em qualquer cenário, o planejamento hormonal pós-operatório deve fazer parte da conversa desde o início — e não ser decidido apenas quando os sintomas aparecem.

Quais sintomas devem levar a uma nova avaliação?

Uma mulher com histórico de endometriose que entra na menopausa deve procurar avaliação médica diante de sintomas novos ou persistentes, especialmente quando eles fogem do padrão habitual.

Alguns sinais que merecem atenção incluem:

  • dor pélvica nova ou progressiva;
  • dor durante as relações sexuais;
  • sintomas intestinais persistentes;
  • sintomas urinários sem explicação;
  • sangramento vaginal após a menopausa;
  • aumento ou sensação de massa abdominal;
  • distensão abdominal persistente;
  • aparecimento de uma massa ovariana ou pélvica em exame de imagem;

Isso não significa que esses sintomas sejam necessariamente provocados pela endometriose. Na menopausa, especialmente diante de sintomas novos, é importante fazer uma investigação completa.

Existe alternativa à terapia hormonal?

Sim. A terapia hormonal não é a única possibilidade para lidar com os sintomas da menopausa.

Dependendo da intensidade e do tipo de sintoma, podem ser consideradas estratégias não hormonais. Algumas medidas comportamentais também podem contribuir para melhorar o sono, saúde óssea, condicionamento físico e qualidade de vida. Entretanto, a escolha depende do sintoma predominante.

Uma mulher com ondas de calor intensas, por exemplo, pode ter necessidades diferentes de outra paciente cuja principal queixa seja ressecamento vaginal ou perda de massa óssea.

Por isso, a decisão não deve ser baseada apenas na existência ou não de endometriose. O tratamento da menopausa precisa considerar a mulher como um todo.

O acompanhamento deve continuar depois da menopausa

Um dos principais erros é imaginar que, após a última menstruação, a mulher com histórico de endometriose deixa de precisar de acompanhamento ginecológico. A menopausa muda o contexto hormonal, mas não apaga automaticamente o histórico da doença.

Se a mulher estiver utilizando terapia hormonal, o acompanhamento é especialmente importante para avaliar a resposta ao tratamento, possíveis efeitos adversos e eventual surgimento de sintomas novos.

Quando existe suspeita de endometriose ativa após a menopausa, a investigação pode envolver avaliação clínica e exames de imagem. Em determinadas situações, a cirurgia pode ser considerada para esclarecer o diagnóstico e obter confirmação histológica.

A estratégia deve ser individualizada, principalmente quando existe histórico de doença profunda, cirurgia extensa ou suspeita de lesões residuais.

Se você tem histórico de endometriose — já operou, tem cirurgia indicada ou está se aproximando da menopausa —, a terapia hormonal não deve ser decidida de forma genérica. Uma avaliação individualizada considera a extensão da doença, a cirurgia realizada ou planejada e os seus sintomas para definir a estratégia de cada fase da vida.

Agende sua avaliação pelo WhatsApp: (61) 99370-8068.

Dr. Pedro Reis · Ginecologista
CRM-DF 19.001 · RQE 16868 (Ginecologia e Obstetrícia) · RQE 25302 (Endoscopia Ginecológica)
Atua no diagnóstico e no tratamento clínico e cirúrgico da endometriose e dos miomas uterinos, com foco em cirurgia minimamente invasiva. Atendimento em Brasília (DF).

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Referências

European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). ESHRE Guideline: Endometriosis. 2022. — principal referência para terapia hormonal da menopausa em mulheres com histórico de endometriose. A diretriz recomenda evitar esquemas exclusivamente com estrogênio e permite considerar terapia combinada; Gemmell LC, Webster KE, Kirtley S, Vincent K, Zondervan KT, Becker CM. The management of menopause in women with a history of endometriosis: a systematic review. Human Reproduction Update. 2017. — revisão importante sobre recorrência e transformação maligna associadas à terapia hormonal; British Menopause Society (BMS). Induced menopause in women with endometriosis. — referência para a discussão sobre terapia hormonal, especialmente a preferência por regimes combinados em determinadas situações; American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Materiais sobre menopausa e terapia hormonal — utilizados como apoio para princípios gerais de tratamento dos sintomas da menopausa.

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