Receber o diagnóstico de mioma submucoso pode levantar uma série de dúvidas, principalmente quando a mulher também precisa escolher ou trocar seu método contraceptivo.
O mioma submucoso é aquele que se desenvolve em direção à cavidade uterina, podendo deformar o espaço onde normalmente se encontra o endométrio. Essa característica faz com que a escolha de determinados métodos contraceptivos, especialmente os intrauterinos, precise ser avaliada com mais atenção.
Mas isso não significa que uma mulher com mioma submucoso fique sem opções de contracepção.
Pelo contrário: existem diversos métodos contraceptivos disponíveis, e a escolha deve considerar não apenas o diagnóstico do mioma, mas também sintomas, intensidade do sangramento, idade, histórico de saúde, desejo de engravidar no futuro e preferência da própria mulher.
O ponto principal é entender que ter um mioma não significa automaticamente que seja necessário evitar anticoncepcionais hormonais ou DIUs. O que muda é a avaliação individual, especialmente quando a lesão altera a anatomia da cavidade uterina. E, quando o mioma submucoso é a causa de um sangramento intenso, surge uma segunda pergunta, tão importante quanto a escolha do método: esse mioma precisa ser tratado?
O que é um mioma submucoso?
Os miomas uterinos, também chamados de leiomiomas, são tumores benignos originados do músculo do útero. Eles podem surgir em diferentes regiões e apresentar tamanhos bastante variados.
De acordo com a localização, podem ser classificados, de forma geral, em:
- submucosos: crescem em direção à cavidade uterina;
- intramurais: estão predominantemente dentro da parede muscular do útero;
- subserosos: crescem em direção à parte externa do útero.
Essa localização não é apenas uma informação descrita no laudo do exame, ela ajuda a entender quais sintomas o mioma pode provocar e quais tratamentos podem ser considerados.
No caso do mioma submucoso, a proximidade com a cavidade uterina é especialmente relevante. Mesmo lesões relativamente pequenas podem provocar alterações importantes no sangramento menstrual.
No laudo do ultrassom ou da ressonância, o mioma submucoso costuma ser descrito pela classificação FIGO: tipo 0, quando está totalmente dentro da cavidade uterina; tipo 1, quando menos da metade do mioma está na parede do útero; e tipo 2, quando metade ou mais está na parede. Essa classificação ajuda a orientar tanto a escolha do método contraceptivo quanto a forma de tratamento do mioma.
Entre os sintomas associados aos miomas estão sangramento menstrual intenso ou prolongado, dor ou pressão pélvica, anemia decorrente da perda de sangue e, dependendo da localização e das características da lesão, alterações relacionadas à fertilidade. Muitas mulheres convivem com menstruações longas, com coágulos e troca de absorvente em intervalos curtos, acreditando que esse é o seu padrão. É uma queixa comum — mas comum não é sinônimo de normal.
Por que o mioma submucoso muda a conversa sobre contracepção?
Porque alguns métodos contraceptivos ficam dentro da cavidade uterina. É o caso dos dispositivos intrauterinos, como o DIU de cobre e o sistema intrauterino liberador de levonorgestrel, conhecido popularmente como DIU hormonal.
Para funcionar adequadamente, o dispositivo precisa estar corretamente posicionado. Quando um mioma submucoso distorce a cavidade uterina, pode ser mais difícil realizar a inserção de forma adequada e manter o DIU na posição correta.
Isso pode aumentar o risco de expulsão ou deslocamento do dispositivo, além de comprometer sua eficácia contraceptiva. Em alguns casos, a própria inserção pode ser mais difícil ou inadequada.
Outro ponto é que o DIU de cobre pode aumentar o fluxo menstrual e as cólicas, o que merece atenção em mulheres que já apresentam sangramento aumentado relacionado ao mioma.
Então toda mulher com mioma não pode utilizar DIU?
Não. Ter um mioma não significa, por si só, que o DIU esteja contraindicado. O principal ponto é avaliar se o mioma, especialmente quando é submucoso, distorce a cavidade uterina a ponto de dificultar ou impedir o posicionamento adequado do dispositivo.
Quando a cavidade não está significativamente alterada, o DIU pode ser uma opção para algumas mulheres. Já nos casos em que há uma distorção importante, outros métodos contraceptivos podem ser mais seguros e adequados.
Por isso, a escolha deve considerar não apenas a presença do mioma, mas também sua localização, tamanho, sintomas, anatomia da cavidade uterina e os planos reprodutivos da mulher.
Quais métodos podem ser considerados quando o DIU não é adequado?
Quando a cavidade uterina está distorcida, no caso de mulheres com mioma submucoso, e o DIU não é recomendado, existem outras opções.
Entre os métodos reversíveis estão:
- pílulas anticoncepcionais combinadas;
- adesivo contraceptivo;
- anel vaginal;
- pílulas apenas de progestagênio;
- implante contraceptivo;
- contraceptivo injetável;
- métodos de barreira;
- outros métodos de acordo com o perfil da paciente;
Ou seja, mesmo quando o DIU não é indicado, isso não significa ficar sem contracepção. É possível escolher outro método que não dependa da anatomia da cavidade uterina.
O mioma deve entrar na escolha do método contraceptivo, mas não decidir sozinho
Ter um mioma submucoso não significa que a mulher não possa usar anticoncepcional. O que muda é a necessidade de olhar com mais atenção para a cavidade uterina, principalmente quando existe interesse em utilizar um DIU.
Se a lesão distorce significativamente a cavidade, a inserção de um dispositivo intrauterino pode não ser segura ou adequada. Por outro lado, quando a cavidade não está comprometida de forma incompatível com o dispositivo, o DIU pode ser considerado em algumas pacientes.
Além disso, o padrão de sangramento precisa fazer parte dessa conversa. O DIU hormonal pode reduzir o sangramento em mulheres com miomas que não distorcem a cavidade, enquanto o DIU de cobre pode não ser a alternativa mais interessante para quem já apresenta menstruação intensa.
Por isso, antes de escolher um método contraceptivo, vale conversar com o ginecologista sobre o tipo de mioma, sua localização, o impacto sobre a cavidade uterina, seus sintomas e seus planos para o futuro.
E o mioma, precisa ser tratado?
Trocar o método contraceptivo resolve a contracepção, mas nem sempre resolve o sangramento. No consultório, é frequente receber mulheres que já mudaram de anticoncepcional mais de uma vez tentando controlar um fluxo intenso que, na verdade, vinha do mioma.
Os métodos hormonais podem reduzir o sangramento em parte das mulheres. Porém, quando o mioma ocupa a cavidade uterina, a resposta ao tratamento clínico pode ser limitada — e o próprio mioma passa a ser o centro da conversa.
Nesses casos, pode ser considerada a histeroscopia cirúrgica: o mioma é retirado por dentro do útero, com acesso pelo canal vaginal e pelo colo uterino, sem cortes no abdômen e com preservação do útero. Em geral, é um procedimento de curta permanência hospitalar.
Nem todo mioma submucoso é tratado da mesma forma. Miomas FIGO 0 e 1 costumam ser mais favoráveis à retirada histeroscópica em um único tempo; miomas FIGO 2 ou de maior tamanho exigem planejamento mais cuidadoso e, em alguns casos, mais de uma etapa ou outra via de acesso.
Depois da retirada e da cicatrização da cavidade, o DIU — inclusive o hormonal — pode voltar a ser uma opção. E, para quem pensa em engravidar no futuro, essa avaliação também importa: miomas que deformam a cavidade podem estar associados a maior dificuldade para engravidar.
Contracepção e tratamento do mioma: decisões que caminham juntas
A escolha do método contraceptivo não precisa ser feita com base em uma lista genérica de “pode” e “não pode”, ela deve considerar a anatomia do útero, os sintomas, os riscos individuais e os objetivos de cada mulher.
E, quando existe um mioma submucoso, essa avaliação se torna ainda mais importante: o método mais adequado será aquele que, além de prevenir uma gestação não planejada, respeitar as características do útero e fizer sentido para a vida e para os planos daquela paciente. Quando o mioma é a origem do sangramento, tratar a causa pode fazer parte da solução.
Se o seu exame descreve um mioma submucoso — ou um mioma FIGO 0, 1 ou 2 — e você convive com menstruação intensa ou prolongada, a avaliação precisa olhar para as duas questões: o método contraceptivo e o tratamento do mioma. Leve seus exames à consulta e agende sua avaliação pelo WhatsApp: (61) 99370-8068.
Dr. Pedro Reis · Ginecologista
CRM-DF 19.001 · RQE 16868 (Ginecologia e Obstetrícia) · RQE 25302 (Endoscopia Ginecológica)
Atua no diagnóstico e no tratamento clínico e cirúrgico da endometriose e dos miomas uterinos, com foco em cirurgia minimamente invasiva. Atendimento em Brasília (DF).
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Referências
American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Uterine Fibroids. — aborda localização dos miomas e o uso do DIU liberador de progestagênio quando o mioma não distorce a cavidade uterina; Centers for Disease Control and Prevention (CDC). U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024. — referência para a elegibilidade dos diferentes métodos contraceptivos em mulheres com miomas e para situações de distorção da cavidade uterina; American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Clinical Challenges of Long-Acting Reversible Contraceptive Methods. — importante para a discussão sobre alterações anatômicas da cavidade e risco de expulsão/deslocamento do DIU; NICE. Heavy menstrual bleeding: assessment and management (NG88). — recomenda considerar a remoção histeroscópica para miomas submucosos e aborda opções de tratamento para sangramento menstrual intenso; NICE. Hysteroscopic mechanical tissue removal (hysteroscopic morcellation) for uterine fibroids (HTG590). — referência sobre miomas submucosos e tratamento histeroscópico.
