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Mioma e endometriose juntos: dá para tratar os dois na mesma cirurgia?

Ter mioma e endometriose ao mesmo tempo não é uma situação incomum. As duas condições são diferentes, têm mecanismos distintos e podem provocar sintomas semelhantes, como dor pélvica, alterações menstruais e dificuldade para engravidar. Quando aparecem juntas, porém, surge uma dúvida bastante prática: é possível tratar o mioma e a endometriose na mesma cirurgia?

Em alguns casos, sim. No consultório, essa é uma das perguntas mais frequentes entre mulheres que chegam com os dois diagnósticos — e a resposta começa no planejamento, não no centro cirúrgico.

A associação de procedimentos pode ser uma estratégia interessante quando as duas doenças apresentam indicação cirúrgica e podem ser tratadas com segurança durante o mesmo ato operatório.

A laparoscopia, por exemplo, pode ser utilizada para tratar endometriose e, em pacientes selecionadas, realizar uma miomectomia laparoscópica. Mas isso não significa que toda mulher com mioma e endometriose deva fazer uma única cirurgia para resolver as duas condições.

A decisão depende da localização, tamanho e quantidade dos miomas, extensão da endometriose, idade, sintomas, desejo de engravidar, reserva ovariana, cirurgias anteriores e, principalmente, da segurança de realizar todos os procedimentos simultaneamente.

Por isso, antes de pensar apenas em “aproveitar a cirurgia”, é preciso entender o que cada doença está causando e qual tratamento realmente traz benefício para aquela paciente.

É normal o mioma e a endometriose aparecerem juntos?

A coexistência das duas condições é observada na prática ginecológica, mas isso não significa que uma necessariamente cause a outra.

Ambas são influenciadas por fatores hormonais e podem ocorrer durante o período reprodutivo, mas possuem características biológicas diferentes. Além disso, os sintomas podem se sobrepor.

Uma mulher com mioma pode apresentar sangramento menstrual aumentado, cólicas, pressão pélvica ou aumento do volume abdominal. Uma paciente com endometriose pode apresentar dor menstrual intensa, dor durante as relações sexuais, dor pélvica crônica, sintomas intestinais ou urinários e dificuldade para engravidar.

Quando as duas condições coexistem, é possível que uma doença contribua para determinados sintomas e a outra para sintomas diferentes.

Por isso, identificar as duas não significa necessariamente que ambas sejam responsáveis por tudo o que a paciente sente.

Essa distinção é fundamental para evitar uma cirurgia maior do que o necessário.

Como saber qual doença está causando cada sintoma?

Alguns padrões ajudam nessa leitura.

O mioma costuma se manifestar com sangramento menstrual aumentado ou prolongado, anemia e sensação de peso ou de volume no abdômen. Quando é grande, pode comprimir a bexiga ou o intestino e causar vontade frequente de urinar ou intestino preso — sintomas que, em geral, estão presentes ao longo de todo o mês.

A endometriose costuma se manifestar com sintomas que acompanham o ciclo: cólica menstrual intensa, dor na relação sexual, dor ao evacuar ou ao urinar durante a menstruação e dor que pode irradiar para as pernas ou para o glúteo. Esse padrão cíclico pode indicar comprometimento do intestino, da bexiga ou de regiões próximas aos nervos da pelve, como o plexo hipogástrico inferior e as raízes sacrais — conexão que costuma passar despercebida quando os sintomas são avaliados isoladamente.

Também é importante avaliar a adenomiose, condição em que o endométrio — a camada que reveste o útero por dentro — se infiltra na parede muscular uterina. Ela acompanha com frequência a endometriose, pode causar cólica intensa e sangramento aumentado e não é resolvida com a simples retirada dos miomas.

Essa leitura cuidadosa — sintoma por sintoma, cruzada com os exames de imagem — é o que permite definir o que realmente precisa ser tratado e evitar tanto uma cirurgia maior do que o necessário quanto uma cirurgia que deixe para trás a verdadeira causa dos sintomas.

Dá para tratar as duas condições na mesma cirurgia?

Em determinadas pacientes, sim.

A laparoscopia pode permitir que procedimentos ginecológicos diferentes sejam realizados no mesmo ato operatório: o tratamento da endometriose e, em alguns casos, a retirada dos miomas.

Assim, uma paciente com endometriose que apresenta indicação de tratamento cirúrgico e um mioma que também precisa ser removido pode, dependendo das características de cada problema, ser submetida a uma cirurgia combinada.

Mas é importante não transformar essa possibilidade em uma regra. O fato de dois procedimentos poderem ser feitos pela mesma via não significa que seja sempre melhor realizá-los juntos.

A cirurgia precisa fazer sentido do ponto de vista médico.

O que determina se as duas doenças podem ser tratadas juntas?

Diversos fatores entram nessa decisão, dentre eles:

1. Localização do mioma

A posição do mioma dentro ou ao redor do útero é um dos fatores mais importantes. De maneira simplificada, os miomas podem ser classificados em:

  • submucosos: que se projetam para a cavidade uterina;
  • intramurais: localizados predominantemente na parede muscular do útero;
  • subserosos: que se projetam para a superfície externa do útero.

Essa localização influencia diretamente a escolha da técnica.

2. Tamanho e quantidade dos miomas

Não existe um tamanho único que determine se um mioma pode ou não ser retirado por laparoscopia. A decisão depende do conjunto de características.

Uma paciente com um único mioma pode ter uma cirurgia relativamente diferente daquela que apresenta vários miomas espalhados pelo útero.

Quanto maior a quantidade de nódulos, maior pode ser a complexidade da miomectomia. Além disso, a retirada de vários miomas pode exigir maior manipulação do útero e aumentar o tempo cirúrgico e o risco de sangramento.

3. Extensão da endometriose

A endometriose também pode variar enormemente. Uma mulher pode apresentar algumas lesões superficiais, enquanto outra pode ter endometriose profunda envolvendo ovários, intestino, bexiga, ureteres e estruturas pélvicas. Quando a doença profunda envolve intestino, bexiga ou ureteres, a cirurgia já é, por si só, longa e complexa — e somar uma miomectomia extensa pode não ser a escolha mais prudente. Já lesões superficiais ou endometriomas, associados a um mioma de acesso favorável, tendem a permitir uma abordagem combinada com mais segurança.

4. Planos reprodutivos e reserva ovariana

O desejo de engravidar muda o planejamento. A miomectomia exige cuidado na reconstrução da parede do útero, e a cirurgia de endometriomas precisa preservar ao máximo o tecido ovariano saudável, já que pode reduzir a reserva ovariana. Em algumas mulheres, a avaliação da reserva — por exemplo, com a dosagem do hormônio antimülleriano — e a conversa sobre preservação da fertilidade fazem parte da estratégia antes da cirurgia.

A cirurgia conjunta aumenta o risco?

Realizar dois procedimentos no mesmo ato cirúrgico pode aumentar o tempo de operação e a complexidade do procedimento. Mas não é correto afirmar que uma cirurgia combinada será necessariamente mais perigosa do que duas cirurgias separadas.

O risco depende de inúmeros fatores. Entre eles:

  • extensão da endometriose;
  • quantidade e tamanho dos miomas;
  • localização das lesões;
  • presença de aderências;
  • necessidade de procedimentos em outros órgãos;
  • histórico de cirurgias anteriores;
  • histórico de anemia;
  • condições clínicas da paciente;

Uma cirurgia longa e complexa pode apresentar riscos maiores independentemente de quantas doenças estejam sendo tratadas.

Por isso, o planejamento deve comparar os benefícios e riscos de operar tudo de uma vez e de dividir o tratamento em etapas.

Quando tratar os dois na mesma cirurgia pode fazer sentido?

A cirurgia combinada pode ser considerada quando:

  • as duas doenças têm indicação cirúrgica;
  • ambas podem ser tratadas pela mesma via ou por procedimentos compatíveis;
  • o tempo cirúrgico permanece aceitável;
  • a condição clínica da paciente permite;
  • existe uma estratégia clara para preservar estruturas importantes;
  • o planejamento reprodutivo foi considerado;
  • a equipe possui experiência para tratar as duas condições;
  • os benefícios de uma única cirurgia superam os riscos de separar os procedimentos;

E quando pode ser melhor fazer duas cirurgias?

Existem situações em que separar os procedimentos pode ser mais adequado.

Um exemplo é o mioma submucoso, que pode ser retirado por histeroscopia, por dentro do útero. Em muitos casos, é possível fazer isso na mesma anestesia da laparoscopia. Mas, quando a histeroscopia prevista é longa — como em miomas maiores ou com maior componente na parede uterina (FIGO 2) — e a endometriose profunda exige uma cirurgia laparoscópica complexa, separar os tempos cirúrgicos pode ser mais seguro.

Outro cenário seria uma paciente com doença intestinal extensa e um mioma que não apresenta sintomas relevantes.

Nesse caso, talvez não exista benefício em adicionar um procedimento uterino que não é necessário.

Também pode haver situações em que o tempo cirúrgico previsto se torna excessivo ou em que a associação dos procedimentos aumenta desnecessariamente a complexidade.

Portanto, fazer duas cirurgias não significa que o tratamento tenha sido mal planejado. Em determinadas pacientes, pode representar justamente a opção mais segura.

O planejamento começa com bons exames

Antes de decidir pela cirurgia, é fundamental conhecer a anatomia da paciente.

No caso dos miomas, a ultrassonografia costuma ser um dos principais exames de avaliação. Dependendo da localização, tamanho e quantidade das lesões, outros exames podem ser necessários. A ressonância magnética também pode fornecer informações adicionais em situações específicas.

Para miomas que comprometem a cavidade uterina, exames como histeroscopia e sonohisterografia podem ajudar na avaliação. Já quando existe suspeita de endometriose profunda, o mapeamento por ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal ou por ressonância magnética pode ajudar a determinar quais estruturas estão envolvidas.

O objetivo desses exames não é simplesmente produzir imagens, é transformar a anatomia em um plano cirúrgico.

Uma cirurgia planejada para a mulher, e não apenas para as doenças

Quando mioma e endometriose aparecem juntos, o tratamento precisa ir além da simples identificação das lesões.

O objetivo não é montar uma lista de problemas e retirá-los um por um. É entender como cada doença está afetando aquela mulher e qual estratégia oferece o melhor equilíbrio entre controle dos sintomas, segurança, preservação da fertilidade e qualidade de vida.

Em algumas pacientes, tratar mioma e endometriose na mesma cirurgia pode ser uma boa estratégia. Em outras, dividir os procedimentos ou tratar apenas uma das doenças pode ser mais seguro e adequado.

Por isso, se você recebeu o diagnóstico de mioma e endometriose, não é necessário assumir que terá obrigatoriamente duas cirurgias, nem que deverá tratar tudo de uma vez.

Uma avaliação ginecológica especializada permite analisar os exames, mapear as doenças e definir uma estratégia individualizada.

O melhor planejamento cirúrgico é aquele que considera a doença, mas também considera a mulher que existe por trás do diagnóstico.

Ter mioma e endometriose ao mesmo tempo não significa que todas as mulheres precisarão da mesma cirurgia. Se você tem os dois diagnósticos — ou convive com cólica intensa e sangramento aumentado sem saber qual é a causa —, leve seus exames de imagem à consulta: é a partir deles que o planejamento começa. Agende sua avaliação pelo WhatsApp: (61) 99370-8068.

Dr. Pedro Reis · Ginecologista
CRM-DF 19.001 · RQE 16868 (Ginecologia e Obstetrícia) · RQE 25302 (Endoscopia Ginecológica)
Atua no diagnóstico e no tratamento clínico e cirúrgico da endometriose e dos miomas uterinos, com foco em cirurgia minimamente invasiva. Atendimento em Brasília (DF).

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Referências

NICE. Endometriosis: diagnosis and management (NG73). — sustenta a abordagem laparoscópica da endometriose, a avaliação pré-operatória e a discussão individualizada de benefícios e riscos; American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Uterine Fibroids. — referência para miomas, miomectomia, preservação uterina, fertilidade e diferentes localizações dos miomas; ESHRE. ESHRE Guideline: Endometriosis. 2022. — especialmente para cirurgia de endometriose, endometriomas, reserva ovariana e planejamento reprodutivo; NICE. Heavy menstrual bleeding: assessment and management (NG88). — referência para miomas submucosos e tratamento histeroscópico; NICE. Hysteroscopic mechanical tissue removal for uterine fibroids (HTG590). — complementa a discussão sobre tratamento histeroscópico dos miomas submucosos.

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